Moeda social fortalece economia de municípios mineiros

Reprodução

A Moeda Social tem ganhado cada vez mais espaço e contribuído para fomentar pequenos negócios em alguns municípios mineiros. Em Teófilo Otoni, no Território Mucuri, por exemplo, a moeda chamada ‘Lisa’, com adesão por parte de consumidores e comerciantes locais, registrou crescimento de 30% em 2015, em relação ao mesmo período do ano anterior.

Criada no município em 2012, a Moeda Social leva o nome ‘Lisa’ em homenagem ao Padre Giovanni Lisa, fundador da Associação Aprender Produzir Juntos (APJ). O dinheiro tem a adesão de mais de 80 estabelecimentos comerciais, da zona sul de Teófilo Otoni, como lojas de material de construção, supermercados, padarias, revendedoras de gás, bares, restaurantes e salão de beleza.

A APJ, que reúne artesãos, representantes de pequenos negócios e associações de bairro, é a organizadora do banco comunitário Banclisa. Responsável pela gestão da moeda Lisa, o Banclisa faz parte da rede brasileira dos bancos comunitários, do programa nacional de Economia Popular Solidária (EPS), executado em Minas Gerais, em parceria com a Secretaria de Estado de Trabalho e Desenvolvimento Social (Sedese).

Funcionamento e projeção

A moeda Lisa tem valor equivalente ao Real, mas oferece vantagens, tais como descontos de até 15% nas compras feitas em lojas credenciadas. Outro benefício é o fato de o dinheiro gerar capital de giro para o comércio local. Segundo a coordenadora de finanças solidária da APJ, Maria Soares, no ano passado, 2.500 Lisas circularam entre os empreendimentos cadastrados no Banclisa.

“Este ano, esperamos aumentar a circulação da moeda social, porque fizemos uma divulgação maior e falamos dos descontos e da fidelização”, ressalta Soares. Um termômetro dessa expectativa de crescimento foi registrado no último mês de fevereiro, com a movimentação de 800 Lisas, número 40% superior em comparação com o mesmo período de 2015.

Clientela

Marcelo Oliveira, dono de supermercado, aderiu ao Lisa há oito meses. O que chamou a atenção dele foi a proposta social da moeda e a possibilidade de oferecer mais um produto aos clientes. “A moeda é importante porque tem a função fortalecer a economia local e ajudar empreendimentos numa região carente”, afirma o comerciante.

Já o vendedor autônomo Fabrício Figueiredo é correntista do Banclisa desde 2013. Ele conta que não teve nenhuma resistência ao Lisa e, de lá para cá, tem utilizado a moeda para comprar gás de cozinha, alimentos e remédios. “O Lisa tem dado certo aqui na nossa região e tem facilidades, como os descontos de 10% nas compras. Além disso quando utilizamos a moeda, estamos ajudando projetos produtivos sociais” destaca Fabrício.

E-dinheiro

A coordenadora de finanças Maria Soares também aposta no sucesso da moeda social eletrônica, o Lisa e-dinheiro. O e-dinheiro funciona por um aplicativo de celular ou por SMS, sem restrição de operadora. Criada especificamente para os bancos   comunitários, a ferramenta eletrônica é aceita em 90% dos estados brasileiros.

Qualquer consumidor pode utilizar o sistema, desde que abra uma conta no banco comunitário - no caso de Teófilo Otoni, no Banclisa -, e deposite certa quantia para efetuar as compras. “Essa ferramenta traz mais credibilidade e facilita o comércio, pois não é necessário dinheiro de papel. Acho que isso vai facilitar a expansão do Lisa para outros bairros de Teófilo Otoni,” explica a coordenadora da APJ.

Confirmando a tendência de ampliação, Maria Soares anunciou, também, que a maior rede de supermercado da cidade acaba de aderir ao Banclisa para receber o e-dinheiro. Além disso, o banco comunitário tem parceria com Caixa Econômica Federal e parte de benefícios como o Bolsa Família, já podem ser repassados em Lisa.

“Com isso, muita gente beneficiada pelo programa pode comprar seus produtos na vizinhança. O que traz mais dinheiro e desenvolvimento para nossos bairros”, comemora Maria.

Linhas de crédito

O Banclisa também atua com três linhas de crédito. A de consumo, por exemplo, empresta até 500 Lisas para que as pessoas possam comprar remédios e alimentos. Já as linhas produtiva e de construção disponibilizam de 500 a 3.000 Lisas. Os juros não passam de 1%. “Nós disponibilizamos o dinheiro depois de conhecer a pessoa e analisar como o dinheiro será aplicado. O contato é personalizado, indo à casa ou ao empreendimento. Esse atendimento é mais próximo porque nosso objetivo não é lucrar e sim apoiar”, ressalta Maria Soares.

A sede do banco é uma referência da EPS na cidade e possui um ponto de comercialização de produtos feitos pela Economia Popular Solidária (EPS). “Aqui, fazemos reuniões mensais para auxiliar na gestão dos empreendimentos e prestação de contas dos empréstimos feitos,” conta a coordenadora.

Expansão dos bancos comunitários

Além de Teófilo Otoni, também contam com o mesmo modelo de instituição financeira os municípios de Esmeraldas (Território Metropolitano) e Chapada Gaúcha (Território Norte).

Entre as metas do Plano Estadual de Desenvolvimento da Economia Popular e Solidária, acordado nos Fóruns Regionais de EPS realizados em Minas Gerais, está a expansão dos bancos comunitários em Minas Gerais.

Segundo o diretor de Geração de Renda da Sedese, Ramon Ramalho, até o final deste ano, serão implantados os bancos comunitários de Igarapé e São Joaquim de Bicas (Território Metropolitano) e de Itambacuri (Território Mucuri). “A proposta é a criação de bancos comunitários em todos os 17 Territórios de Desenvolvimento”, destaca.

Para o secretário de Estado de Trabalho e Desenvolvimento Social, André Quintão, a   economia solidária é uma estratégia de ampliação de renda, principalmente em regiões onde o emprego e o mercado de trabalho formal são insuficientes para incorporar as pessoas. “A EPS permite uma diversificação das formas de inclusão produtiva e geração de renda. Num estado como Minas Gerais isso é mais importante ainda”, avalia o secretário.

Banco comunitário

A rede de bancos comunitários é formada por 104 bancos em todo Brasil. O objetivo é promover o desenvolvimento de territórios de baixa renda, por meio do fomento à criação de redes locais de produção e consumo.

O banco comunitário baseia-se no apoio às iniciativas da economia popular e solidária em seus diversos âmbitos, como: de pequenos empreendimentos produtivos; de prestação de serviços; de apoio à comercialização; e o vasto campo das pequenas economias populares.


CONSEA manifesta preocupação com rumos da crise política



O Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) divulgou nesta terça-feira uma nota pública aos poderes constituídos e à sociedade brasileira, na qual se manifesta sobre as crises política e econômica e seus desdobramentos, que poderão ter impactos sobre direitos do cidadão – como os direitos à vida, ao trabalho e à alimentação.    
No documento, os conselheiros afirmam serem “testemunhas e partícipes de importantes conquistas que permitiram eliminar a fome endêmica no Brasil, melhorar as condições para a produção de alimentos pelos agricultores e agricultoras familiares, povos indígenas, quilombolas, povos tradicionais de matriz africana, e demais comunidades tradicionais; construir instrumentos de proteção social em regiões historicamente desfavorecidas como o semiárido e muitos outros avanços na progressiva realização dos direitos humanos”.
O Consea expressa na nota “o firme compromisso com a legalidade democrática, o Estado Democrático de Direito e a cidadania, repudiando com veemência as investidas que visam à desestabilização política do país, a incitação do ódio e da intolerância com o outro e, mesmo, a violência física contra o opositor”.
O conselho critica “as medidas em curso, de caráter antipopular, que inclui pontos como redução da maioridade penal, a extinção das cotas e ações afirmativas, a retirada das perspectivas racial e de gênero dos planos de educação e a criminalização do aborto, e outros mais”.
“Dirigimo-nos, respeitosamente, ao Supremo Tribunal Federal, em sua missão de cumprir com serenidade, mas firmeza, a função precípua de guardião de nossa Carta Magna. Tememos que a perda  do direito de igualdade de tratamento que estamos presenciando no Brasil, caso não seja enfrentada com firmeza e respeito à Constituição Federal, poderá ter entre suas consequências a flexibilização dos próprios direitos fundamentais à vida, ao trabalho, à terra e ao território, e o próprio direito humano à alimentação”, conclui a nota.

Clique aqui para para ler a nota na íntegra
Fonte: Ascom/Consea


O papel das escolas, famílias e do governo no combate à obesidade é tema de oficina gratuita na Rede Mobilizadores


Inscrições abertas até 18 de março, no site www.mobilizadores.org.br
11/3/2016
Pela primeira vez na história da humanidade há mais pessoas com excesso de peso do que desnutridas. Cerca de 2,1 bilhões de pessoas no mundo estão com sobrepeso, das quais 670 milhões sofrem de obesidade, boa parte delas crianças.  No Brasil, segundo o IBGE, cerca de 1/3 da população entre 5 e 9 anos está acima do peso ideal. A principal causa dessa epidemia de obesidade, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), é o aumento da oferta de alimentos energéticos, com muitas calorias.

Diante da necessidade de se enfrentar a epidemia de obesidade, a Rede Mobilizadores promove, de 14 a 18 de março, a oficina online gratuita Alimentação Escolar e Combate à Obesidade, para debater o papel das escolas, famílias e do governo na promoção de uma alimentação escolar saudável e na formação de cidadãos mais conscientes e participativos.

A atividade terá facilitação de Elisabetta Recine, professora adjunta do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde da Universidade de Brasília, docente e coordenadora do Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição (OPSAN/UnB), integrante do GT Alimentação e Nutrição em Saúde Coletiva da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), e conselheira do Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea) e do Consea – DF.

O enfrentamento da epidemia de obesidade tem mobilizado nutricionistas e especialistas em saúde pública de todo o mundo e, entre outras coisas, a maioria desses profissionais aponta a necessidade de se regular a publicidade de alimentos dirigida a crianças e adolescentes, taxar produtos como as bebidas adoçadas, dar auxílio e incentivar famílias com poucos recursos para que comprem frutas e verduras frescas, e desenvolver programas educativos para ensinar boas práticas em nutrição nas escolas. É fundamental, portanto, que os governos exerçam seu papel regulador, coibindo ou limitando práticas inadequadas e estimulando, de diferentes formas, a alimentação saudável.



Sabe-se que formação dos hábitos alimentares começa em casa desde os primeiros dias de vida da criança, com a amamentação adequada, e segue ao longo do seu desenvolvimento com a oferta de alimentos frescos, pouco processados, evitando-se açúcares, gorduras e produtos industrializados. E nesse processo, as escolas são espaços privilegiados para implementação de ações educativas que ajudem na formação de valores, hábitos e estilos de vida, evitando que crianças se tornem presas fáceis da abundante oferta de alimentos atrativos, saborosos, mas nada saudáveis.

Inscrições

A oficina, que tem apoio do Banco do Brasil, Furnas e Eletronoclear, está com inscrições abertas até 18 de março. Para se inscrever, é preciso estar cadastrado no site da Rede Mobilizadores. O processo é simples, rápido e gratuito. Faça seu cadastro em: <http://www.mobilizadores.org.br/inscreva-se/>.

Agroecologia e o fornecimento de alimentos - Maria Emilia Pacheco - Entrevista - Canal Futura


O papel das escolas, famílias e do governo no combate à obesidade é tema de oficina gratuita na Rede Mobilizadores






Pela primeira vez na história da humanidade há mais pessoas com excesso de peso do que desnutridas. Cerca de 2,1 bilhões de pessoas no mundo estão com sobrepeso, das quais 670 milhões sofrem de obesidade, boa parte delas crianças. No Brasil, segundo o IBGE, cerca de 1/3 da população entre 5 e 9 anos está acima do peso ideal. A principal causa dessa epidemia de obesidade, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), é o aumento da oferta de alimentos energéticos, com muitas calorias.

Diante da necessidade de se enfrentar a epidemia de obesidade, a Rede Mobilizadores promove, de 14 a 18 de março, a oficina online gratuita Alimentação Escolar e Combate à Obesidade, para debater o papel das escolas, famílias e do governo na promoção de uma alimentação escolar saudável e na formação de cidadãos mais conscientes e participativos.

A atividade terá facilitação de Elisabetta Recine, professora adjunta do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde da Universidade de Brasília, docente e coordenadora do Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição (OPSAN/UnB), integrante do GT Alimentação e Nutrição em Saúde Coletiva da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), e conselheira do Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea) e do Consea – DF.

O enfrentamento da epidemia de obesidade tem mobilizado nutricionistas e especialistas em saúde pública de todo o mundo e, entre outras coisas, a maioria desses profissionais aponta a necessidade de se regular a publicidade de alimentos dirigida a crianças e adolescentes, taxar produtos como as bebidas adoçadas, dar auxílio e incentivar famílias com poucos recursos para que comprem frutas e verduras frescas, e desenvolver programas educativos para ensinar boas práticas em nutrição nas escolas. É fundamental, portanto, que os governos exerçam seu papel regulador, coibindo ou limitando práticas inadequadas e estimulando, de diferentes formas, a alimentação saudável.

Sabe-se que formação dos hábitos alimentares começa em casa desde os primeiros dias de vida da criança, com a amamentação adequada, e segue ao longo do seu desenvolvimento com a oferta de alimentos frescos, pouco processados, evitando-se açúcares, gorduras e produtos industrializados. E nesse processo, as escolas são espaços privilegiados para implementação de ações educativas que ajudem na formação de valores, hábitos e estilos de vida, evitando que crianças se tornem presas fáceis da abundante oferta de alimentos atrativos, saborosos, mas nada saudáveis.

Inscrições

A oficina, que tem apoio do Banco do Brasil, Furnas e Eletronoclear, está com inscrições abertas até 18 de março. Para se inscrever, é preciso estar cadastrado no site da Rede Mobilizadores. O processo é simples, rápido e gratuito. Faça seu cadastro em: .

Depois de cadastrado, faça sua inscrição na oficina em:







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Banco de alimentos de Ubá



Experiências bem sucedidas de bancos de alimentos serão conhecidas por todo país na 1ª Mostra Nacional de Banco de Alimentos, que será realizada em maio





Valorizar a agricultura familiar, combater o desperdício de alimentos, promover a Segurança Alimentar e Nutricional são os destaques no trabalho realizado pelo Banco de Alimentos de Ubá (MG). Cerca 3.540 pessoas são beneficiadas todo mês com as mais de 25 toneladas de alimentos distribuídas pelo banco.
Os alimentos recebidos pelo Banco de Alimentos são da agricultura familiar, adquiridos através do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), e de doações.
A nutricionista e supervisora da Seção de Segurança Alimentar e Nutricional do Banco de Alimentos, Gisely Peron Gasparoni, explica que o fortalecimento da agricultura familiar é um dos trabalhos em destaque desde 2009. “Com a operacionalização do Programa de Aquisição de Alimentos e a parceria da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG), a quantidade de pequenos agricultores cadastrados no PAA aumentou de 9 para 130.”
A distribuição dos alimentos é feita para as entidades de assistência social que preparam os alimentos e distribuem as refeições prontas. O banco também monta kits com variedade de alimentos que suprem as necessidades semanais de 180 famílias cadastradas que são atendidas por meio das entidades socioassistencias de Ubá/MG.
Segundo a nutricionista, o trabalho é eficaz devido às parcerias com a Emater, a Universidade Federal de Viçosa (UFV), entre outros. “A Emater é a principal parceira dos nossos projetos. Mas os alunos de graduação em Nutrição e Saúde das universidades também realizam um ótimo trabalho. Com os estágios é possível as ações de monitoramento, avaliação e Educação Alimentar e Nutricional.”


Documentário “As Sementes” destaca a participação das mulheres na Agroecologia


 O papel da mulher dentro da agroecologia é tema do documentário As Sementes (2015, 30 min), dirigido pelo cineasta e economista Beto Novaes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
As Sementes é inspirado no livro Mulheres e Agroecologia: transformando o campo, as florestas e as pessoas, que surgiu a partir da tese de doutorado de sua autora, Emma Silliprandi. Em sua filmografia, Beto Novaes retrata temas relacionados ao mundo do trabalho e resgatando a memória das lutas das trabalhadoras e dos trabalhadores rurais.

O ponto alto do documentário As Sementes está no retrato que é feito das trabalhadoras rurais sem o reforço de estereótipos. São mulheres que romperam com a dominação masculina e que permitiram filmar seus lados guerreiros e revolucionários, ao mesmo tempo em que expuseram suas fragilidades. 

Por Direitos e Soberania Alimentar: falam as mulheres!







Maria Emília Lisboa Pacheco



Como atuam as mulheres na defesa e promoção da Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional? Que obstáculos superar para garantir a igualdade nas relações sociais de gênero? Que propostas e mecanismos inovar ou aperfeiçoar para a efetivação dos direitos das mulheres na Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional? São exemplos de perguntas a debater no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher.

Há que reconhecer conquistas das mulheres através da história, fruto de suas lutas e organização. Mas ainda vivemos tempos de muitas desigualdades.Miriam Nobre e Nalu Faria, na publicação“Gênero e Desigualdade” (Sempreviva Organização Feminista, São Paulo, 1997), escrevem que as relações sociais de gênero estruturam o conjunto das relações sociais e de práticas sociais. Os espaços da família, do mundo do trabalho, da política, da economia, da cultura, organizam-se a partir de papéis masculinos e femininos definidos socialmente e são relações hierárquicas e de poder.

O conceito explica as identidades e papéis masculino e feminino como construção histórica e social, sujeita portanto à mudança. Esta construção tem uma base material, e não apenas ideológica, que se expressa na divisão sexual do trabalho. Por isso, incluir as relações de gênero como um dos fatores determinantes da segurança alimentar e nutricional é condição necessária para a cidadania das mulheres e a garantia do direito à alimentação adequada e saudável.

A Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional adotou esta perspectiva ao inscrever entre seus objetivos, “articular programas e ações de diversos setores que respeitem, protejam, promovam e provejam o direito humano à alimentação adequada, observando as diversidades social, cultural, ambiental, étnico-racial, a equidade de gênero e a orientação sexual, bem como disponibilizar instrumentos para sua exigibilidade” (Art. 4º, inciso II, do Decreto 7.272, de 25.08.2010, que regulamenta a Lei 11. 346, de 15.09.2006).

Nos últimos anos, o quadro de segurança alimentar melhorou no país. A desagregação dos dados da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (Ebia), que mensura a percepção dos moradores de referencia dos domicílios em relação ao acesso aos alimentos, mostra-nos, entre 2009 e 2013, uma variação positiva de 13,7% nos domicílios chefiados por mulheres. Mas a prevalência da insegurança alimentar grave, ou seja, a vivência de situações de fome, persiste nestes domicílios em todas as regiões do país. E a comparação com os dados dos domicílios chefiados por homens mostra-nos que o percentual de 3,9% entre as mulheres é pior do que o índice dos domicílios chefiados pelos homens da ordem de 2,8%, e também pior do que a média nacional que equivale a 3,2%, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), realizada em 2013. 

A redução da pobreza e, sobretudo da extrema pobreza no país veio acompanhada da redução da insegurança alimentar e da fome. As desigualdades que permanecem mostram a importância de políticas afirmativas que respondam às diferentes realidades das mulheres.

As condições de acesso, controle e manejo dos bens da natureza e de bens materiais pelas mulheres, bem como a participação nos processos de tomada de decisões no interior da família, e nos espaços organizativos constituem-se em variáveis fundamentais para o desenho das políticas públicas com a abordagem de gênero. 

Historicamente, as mulheres do campo, das florestas e das águas, além de menor acesso à terra e território, financiamentos, assistência técnica e comercialização dos produtos, vivem também limitações para suas liberdades pessoais e autonomia econômica. Simultaneamente continuam lutando pelo reconhecimento de sua identidade. As pescadoras, por exemplo, protestam contra normativas no âmbito das medidas de ajuste que ferem seus direitos. Questionam a definição de trabalhadoras de apoio à pesca, em detrimento do reconhecimento de sua identidade como pescadoras. Afirmam que “esta categoria hierarquiza e desvaloriza o trabalho das mulheres pescadoras, e além disso coloca em risco a autonomia, agravando a vulnerabilidade social e econômica de milhares de mulheres pescadoras” (Carta das Pescadoras à Presidenta Dilma Rousseff, Articulação Nacional das Pescadoras, junho de 2015).

Em outros contextos, muitas vezes, técnicos e agentes públicos naturalizam a visão sobre a família como se fosse homogênea, ignorando as relações sociais de gênero. Assim procedendo, acabam por identificar como interlocutor do Estado o homem como “chefe de família”.

O papel das mulheres continua também sendo invisibilizado ou contestado mesmo quando elas assumem uma posição de liderança. A busca de novas alternativas de alimentação e transformação dos alimentos, visando o enriquecimento da dieta alimentar, e geração de renda, com a diversificação dos sistemas alimentares e processos de transição da agricultura convencional para a agroecológica, de forma recorrente tem sido de iniciativa das mulheres. Mas ainda se vê pelo país casos de violência patrimonial por parte dos maridos que jogam veneno em suas plantações por discordarem de sua decisão.

A busca de uma maior independência financeira para as mulheres rurais, assim como já alcançado em grande parte pelas mulheres urbanas, faz parte de sua agenda. As mulheres, especialmente nas cidades, integraram-se no mercado de trabalho. Isto é uma conquista. Mas a visão patriarcal que vincula o trabalho das mulheres às mudanças do perfil alimentar da população precisa ser contestada. 

Há programas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) que podem favorecer a autonomia econômica das mulheres. Em muitos casos, esses programas redinamizam e diversificam o processo produtivo e favorecem a valorização das culturas alimentares com espécies e variedades que em alguns contextos estavam sendo deixados de produzir, como, por exemplo, abóbora, inhame, batata-doce, cará, fruta etc.

É importante considerar também que as práticas de autoconsumo constituem-se em estratégia para a melhoria na qualidade da alimentação, redução das despesas com alimentos e aumento da autonomia da família frente ao mercado. As mulheres têm reivindicado seu fortalecimento através de propostas de programas de fomento e crédito.

A 5ª Conferencia Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, realizada no ano passado, com o lema “Comida de verdade no campo e na cidade: por direitos e soberania alimentar”, contou com a participação de 54% de mulheres.

Na Carta Política há uma manifestação clara de compromisso com os direitos das mulheres: “As mulheres das cidades, do campo, das águas, da floresta têm atuação estratégica para garantir a segurança alimentar e nutricional, pois são produtoras de alimentos. No entanto, as desigualdades de gênero persistem: ainda hoje a imensa maioria das mulheres vivencia triplas jornadas de trabalho e mulheres negras sofrem dupla discriminação, de gênero e de raça”.

Ainda segundo a Carta: “Enfrentar essas e outras injustiças requer o combate ao racismo e ao sexismo, assim como efetivar políticas específicas de educação e formação que desnaturalizem a divisão sexual do trabalho e a violência de gênero, de modo a viabilizar a construção de novos paradigmas de responsabilidades compartilhadas entre homens e mulheres nos âmbitos público e privado”.

Por fim, a Carta Política da 5ª Conferência fala da urgência em “conquistar novos direitos e aprofundar programas e ações que viabilizem o trabalho em condições equivalentes aos homens, a construção e ampliação de equipamentos públicos e de infraestrutura de produção que promovam as mulheres e que possibilitem a sua autonomia econômica e política, aí incluindo abrigos e delegacias para situações de violência doméstica, creches, lavanderias coletivas, cozinhas e restaurantes comunitários, entre outros equipamentos. Faz-se igualmente necessário avançar nas estratégias de atenção à saúde da mulher”.

Precisamos ouvir as mulheres e reconhecê-las como sujeitos políticos portadoras de novos sentidos para as propostas de políticas e continuarmos caminhando na construção da soberania e segurança alimentar e nutricional com igualdade de gênero. 

Maria Emília Pacheco é antropóloga e presidenta do Consea.